A Volkswagen, segunda maior montadora do mundo e prestes a completar 100 anos de história, pode estar a um passo de realizar uma das mais drásticas e dolorosas reestruturações de sua trajetória. Pressionada pela mudança do cenário global e pela concorrência asiática, a gigante alemã estuda medidas extremas para conter gastos.
De acordo com informações divulgadas por órgãos de imprensa alemães e agências internacionais nesta sexta-feira (26), o grupo automotivo avalia o fechamento de quatro fábricas na Alemanha e uma ampliação severa nos cortes globais, que podem atingir a marca de 100 mil empregos eliminados até o final desta década.
O “Efeito China” e a busca por competitividade
Segundo a agência de notícias Reuters, o pacote de medidas visa recuperar a competitividade do grupo, especialmente nas operações europeias. O mercado local tem sofrido forte impacto com a ascensão rápida e agressiva das marcas chinesas, que oferecem veículos eletrificados a preços muito inferiores.
A revista alemã Manager Magazin revelou que o plano de reestruturação inclui o eventual encerramento das atividades produtivas nas cidades de Hanover, Zwickau, Emden e Neckarsulm — esta última, a principal base produtiva de modelos da Audi. Caso o fechamento dessas unidades seja aprovado, o movimento poderá resultar em 45 mil demissões, somando-se aos 50 mil cortes já acordados anteriormente com os sindicatos trabalhistas.
Espera-se que o futuro da operação seja definido na próxima reunião da cúpula da empresa, marcada para 9 de julho.
Cortes bilionários nos investimentos
A tesoura da Volkswagen não deve parar apenas nas fábricas e no quadro de funcionários. O atual CEO da montadora, Oliver Blume, apresentou aos principais dirigentes do grupo uma proposta para reduzir os investimentos globais da empresa em 15%. Com a medida, o montante destinado a melhorias e novos produtos cairia para pouco mais de € 130 bilhões ao longo dos próximos cinco anos.
Procurada pela imprensa europeia, a Volkswagen optou por não confirmar os detalhes abertamente, mas não negou a gravidade da situação. Em nota enviada à Manager Magazin, a montadora afirmou que “fatos relevantes” serão discutidos internamente pelos órgãos competentes, mas deixou um alerta claro sobre o momento da indústria:
“Não nos anteciparemos a esse processo. O conselho executivo do grupo enfatizou repetidamente que nosso modelo de negócios atual não funciona mais para todas as marcas em sua forma atual.”
O peso da crise financeira de 2025
As decisões drásticas ganham contornos mais nítidos ao analisarmos o balanço financeiro da companhia referente ao ano de 2025, divulgado em março. Os números explicitaram os pesados desafios enfrentados pela maior montadora da Europa:
- Faturamento: Estagnado em € 322 bilhões.
- Entregas: 9 milhões de veículos (queda de 0,2% em relação ao ano anterior).
- Lucro Líquido: € 6,9 bilhões, representando uma queda drástica de 44%.
Na época da divulgação do balanço, Oliver Blume já havia antecipado em uma carta aos acionistas que o plano de contenção de despesas previa a eliminação de 50 mil vagas na Alemanha até 2030, número que agora pode ser dobrado em virtude do cenário adverso. “Estamos percebendo que o modelo de negócios que nos sustentou por décadas não funciona mais e o quão volátil e frágil é o nosso mundo”, escreveu o executivo.