Há algo de profundamente metafísico na união entre um motor de combustão interna e uma guitarra distorcida. Não é apenas metal, borracha e fios de cobre; é uma extensão da alma humana, uma tentativa desesperada e gloriosa de fugir da finitude através da velocidade. Se a vida é uma linha reta, o rock and roll foi o combustível que nos deu a permissão de fazer curvas perigosas.
Nos anos 50, o rock era puro, quase virginal, como um Cadillac conversível parado sob um neon de lanchonete. Chuck Berry, com aquele seu “Johnny B. Goode”, não cantava apenas sobre um rapazinho do campo; ele cantava sobre a promessa de ir longe, de deixar o mundo estático para trás em um Ford V8 que rugia como um bicho solto. A estrada era uma novidade, uma promessa de horizonte, um convite para o primeiro beijo no banco de couro sob o luar de uma rodovia americana e essa ideia fez eco no Brasil.
Depois, vieram os 60 e os 70. O som ficou mais sujo, mais denso. O motor já não era apenas um meio de transporte; era uma usina de força. O Hard Rock trouxe o Led Zeppelin e o Deep Purple, onde a mecânica e a música se fundiram em uma nota só. “Highway Star” não é uma música; é uma aula de engenharia automotiva aplicada ao êxtase. O pistão subindo e descendo, sexy, a rotação do motor sintonizada com a pulsação da aorta. O asfalto, antes uma estrada romântica, tornou-se uma fita preta infinita onde o destino pouco importava — o que valia era o ritual da ignição, o cheiro de gasolina queimada e o vento a arrancar a sanidade pelas janelas abertas.
Nos 80 e 90, o rock perdeu um pouco daquela ingenuidade romântica e ganhou uma melancolia de fim de tarde. O Guns N’ Roses nos levou a “Paradise City” não em um carro de luxo, mas em uma carona incerta, com o motor batendo pino e o tanque quase vazio. O carro aqui já não era um símbolo de status, era um refúgio. Em tempos de incertezas, o motor funcionando é a única prova de que ainda existimos, de que ainda temos o controle sobre alguma coisa — ainda que esse controle seja apenas a trajetória de um pneu sobre o alcatrão quente.
A mecânica e a música encontram-se onde o suor do homem encontra a graxa da máquina. Há uma poesia inegável no barulho das válvulas, um compasso de bateria que imita o coração que bate mais forte quando a paisagem começa a borrar nas laterais. O rock é a trilha sonora da nossa necessidade de movimento. Talvez porque, no fundo, todos saibamos que a estrada é o único lugar onde a morte, esse motorista implacável que nos persegue, tem dificuldade de fazer uma curva.
Enquanto houver um motor a rugir sob um capô e uma guitarra a chorar em um amplificador, a liberdade não terá parado. Ela estará apenas a um giro de chave de distância, esperando por nós na próxima placa de sinalização.
O que você sente quando ouve o rugido de um motor potente, essa sensação de que o mundo inteiro pode ser deixado para trás apenas com o peso do pé no acelerador?