Os números não mentem: o consumidor brasileiro é, definitivamente, apaixonado por utilitários esportivos. No acumulado de janeiro a maio de 2026, as vendas de SUVs superaram a marca de 503,7 mil unidades. Com um crescimento expressivo de quase 32% frente ao mesmo período do ano passado, o segmento agora responde por implacáveis 57,7% dos licenciamentos de automóveis de passeio — um mercado que, no geral, avançou num ritmo bem menor (21,4%).
Esse domínio eloquente já não é exatamente uma surpresa, mas a velocidade da expansão impressiona. Participações próximas ou acima dos 50% vêm sendo registradas há alguns anos. Contudo, considerando a enxurrada de lançamentos previstos para os próximos meses, especialistas apontam que os SUVs podem alcançar e até ultrapassar a barreira dos 60% de participação ainda no fim de 2026 ou, no mais tardar, em 2027.
O retrato de uma década de transformações
Tanto quanto os percentuais de vendas, a quantidade de utilitários esportivos presentes no topo do ranking sublinha essa ascensão desenfreada na última década. Da restrita lista dos 50 automóveis de passeio mais licenciados de janeiro a maio deste ano, nada menos do que 30 são utilitários esportivos — embora alguns flertem com a silhueta dos crossovers — e três deles já marcam presença entre os dez primeiros.
A comparação com dez anos atrás deixa o cenário ainda mais cristalino. Em 2016, primeiro ano cheio de vendas do Jeep Renegade nacional (modelo que atuou como gasolina na então tímida fogueira dos SUVs), a categoria contava com apenas 12 veículos entre os 50 mais vendidos.
Naquela época, o SUV mais bem colocado era o Honda HR-V, estacionado na 9ª posição, mas emplacando apenas um terço do volume do então líder isolado, o Chevrolet Onix. A participação total do segmento engatinhava abaixo dos 18%, ficando atrás dos sedãs pequenos, dos hatches (26,4%) e dos chamados carros de entrada (20,6%).
Hoje, a realidade inverteu: os hatches pequenos respondem por 24,8% das vendas, enquanto os carros de entrada despencaram para meros 6,2%.
Para efeito de comparação do Top 50:
- Em 2016: 18 hatches, 16 sedãs, 12 SUVs, 3 monovolumes e 1 station wagon (perua).
- Em 2026: 30 SUVs, 11 hatches, 7 sedãs, 2 monovolumes e zero station wagons.
Portfólio em expansão e a invasão chinesa
A oferta farta e diversificada de modelos é o grande motor dessa soberania. Segundo Milad Kalume, diretor da consultoria especializada K.Lume, o portfólio atual no Brasil congrega pelo menos duzentos modelos de SUVs à disposição dos consumidores, considerando as opções ultrassegmentadas.
“Entendo que este número tende a aumentar um pouco mais, principalmente em decorrência do crescimento contínuo do segmento de SUVs médios e, ainda mais, dos compactos”, analisa Kalume.
O consultor ilustra essa tendência dissecando os emplacamentos recentes. Se em 2024 os utilitários compactos representavam 31,9% das vendas de automóveis, em 2026 eles já dominam 35,4% dos emplacamentos.
A fatia dos SUVs médios também deu um salto considerável. Na mesma janela de tempo, passou de 13% para 18%. Esse crescimento acelerado conta com a forte colaboração das marcas que começaram a operar mais agressivamente no país nos últimos anos, destacando-se as montadoras chinesas, que elevaram o sarrafo em tecnologia e eletrificação no segmento médio.