A paixão do homem contemporâneo pelas máquinas costuma ter o curioso dom de transformá-lo num poeta de garagem. Vejam só a última do octogenário Gordon Murray — sujeito que dedica a vida a inventar brinquedos para adultos cujos saldos bancários desafiam a imaginação.
Desta vez, o homem resolveu apresentar em Monterey um tal de S1. Diz a apresentação oficial que é um superesportivo naturalmente aspirado, criado como “uma homenagem para as ruas” ao clássico McLaren F1 dos anos 1990. Uma homenagem, vejam vocês. Antigamente, uma homenagem entre amigos consistia num abraço, numa garrafa de vinho ou num relógio marcante. Hoje, presta-se vassalagem com doze cilindros em V, válvulas de titânio e 680 cavalos urrando a 12.100 rotações por minuto mesmos números da McLaren de fórmula 1 campeã em 1988 com um tal de Ayrton Senna.
O detalhe mais sublime dessa máquina não é a engenharia, é o humor sutil de quem a desenhou. Descobre-se que o cofre do motor vem forrado com um escudo térmico de ouro vinte e quatro quilates. Oito séculos de alquimia para isso: usar o metal mais nobre da Terra não para coroar reis, mas para não queimar a pintura de uma joia sobre rodas, mais uma vez, lembrando que esse é um legado da F1.
E não para por aí. Para convencer o felizardo comprador de que o carro serve para “o dia a dia” — essa entidade imaginária onde bilionários vão à padaria comprar pão francês de V-12 —, elevaram a suspensão em dez milímetros. Dez milímetros! A generosidade é comovente. É a margem que separa o triunfo absoluto do pesadelo de raspar o assoalho numa valeta de rua secundária.
Para completar a indulgência do cotidiano, instalaram vidros elétricos, bancos com estofamento um pouco mais espesso e isolamento acústico. Afinal, ninguém é de ferro. O sujeito paga mais de vinte milhões de dólares num carro e tem todo o direito de ouvir a sua música predileta sem que o ruído produzido pelo motor V12 aspirado de 4,2 litros afinado pela icônica Cosworth e soprado pelo escapamento de inconel polido, contêm ironia.
Ao todo, serão apenas 64 unidades no mundo. Sessenta e quatro afortunados que poderão ostentar a posição central de pilotagem — o motorista ao meio, flanqueado por dois caronas, como um paxá moderno em seu trono de fibra de carbono.
O mundo pode estar à beira do caos, as bolsas podem oscilar e o trânsito das metrópoles continuar parado. Mas não há de ser nada: em algum lugar do planeta, haverá um sujeito acelerando 680 cavalos banhados a ouro, perfeitamente protegido por dez milímetros a mais de distância do solo. #tksgordonmurray