A mobilidade puramente elétrica não será mais a prioridade absoluta da Honda para os seus automóveis nos próximos anos. Em coletiva de imprensa realizada em Tóquio, o CEO global da marca, Yoshiro Mibe, revelou uma mudança drástica de rumo: a segunda maior montadora japonesa abandonou oficialmente a meta de eliminar completamente os motores a combustão interna até 2040.
Daqui para frente, a estratégia da fabricante será pragmática. Enquanto o mercado global de veículos a bateria (EVs) não demonstrar uma demanda consistente que resulte em rentabilidade real, a Honda concentrará seus esforços e investimentos essencialmente em modelos híbridos.
Prejuízo inédito em quase 70 anos força mudança de planos
A guinada tecnológica ocorre imediatamente após a Honda registrar o primeiro prejuízo de sua história desde que abriu o capital em 1957. No último ano fiscal, encerrado em março, a montadora amargou um déficit de US$ 2,6 bilhões (cerca de R$ 13,5 bilhões), revertendo completamente as projeções anteriores de lucro.
O balanço negativo foi creditado, em grande parte, aos pesados aportes financeiros destinados ao desenvolvimento e à infraestrutura de produção de carros elétricos, que ainda não deram o retorno esperado. Como reflexo imediato da crise institucional, o CEO Yoshiro Mibe e o vice-presidente executivo Noriya Kaihara renunciarão voluntariamente a 30% de suas remunerações por três meses, enquanto outros diretores abrirão mão de 20% de seus vencimentos.
A nova ofensiva híbrida da Honda
Para retomar o caminho da lucratividade, a Honda projeta uma nova geração de sistemas híbridos com custo de produção 30% menor em comparação com a tecnologia utilizada desde 2023. O plano prevê o lançamento global de pelo menos 15 novos veículos híbridos até 2030, sendo que o primeiro deles deve estrear já em 2027.
Esses futuros modelos adotarão uma plataforma totalmente nova. Durante o anúncio, Mibe exibeu dois protótipos que antecipam essa identidade: o Honda Hybrid Sedan e o Acura Hybrid SUV, ambos com previsão de chegada ao mercado global em até dois anos.
Para viabilizar o plano, a linha de montagem da L-H Battery Company — joint venture entre a Honda e a LG Energy Solution — terá parte de suas instalações convertida da produção de células para EVs para o fornecimento de baterias de sistemas híbridos. A marca assegura que continuará desenvolvendo as bases para uma plataforma competitiva de elétricos no futuro, mas o ritmo de introdução dependerá estritamente do mercado.
Reestruturação geográfica e o “salvamento” pelas duas rodas
A revisão tecnológica provocou um redesenho no mapa de produção global da Honda:
Estados Unidos e Canadá: Três novos carros elétricos que seriam fabricados em solo americano foram cancelados. A cadeia de produção de EVs planejada para Ontário (Canadá) foi suspensa por tempo indeterminado. Em contrapartida, as fábricas de Ohio (EUA) usarão sua capacidade excedente para produzir modelos a gasolina e híbridos.
China: A operação perderá relevância estratégica. A Honda reconheceu publicamente a falta de competitividade frente às montadoras locais chinesas, que dominam o mercado de elétricos de baixo custo.
Índia: O mercado indiano receberá forte atenção na divisão de automóveis com o foco na produção de veículos médios com menos de 4 metros de comprimento.
Se os automóveis geraram perdas pesadas, a divisão de motocicletas da Honda funcionou como o principal motor financeiro da empresa. O segmento registrou lucro operacional recorde impulsionado pelas vendas na Ásia e na América do Sul. Ao todo, foram comercializadas 22,1 milhões de motos mundialmente — o maior volume da história da marca. A Índia também será o polo central de expansão das duas rodas, com a capacidade produtiva saltando de 6,25 milhões para 8 milhões de unidades até 2028 para atender a demanda de clientes que migram para categorias superiores de alta cilindrada.
Com esse plano de contenção e foco em híbridos, a Honda projeta uma recuperação gradual, estimando um lucro operacional próximo de US$ 3,1 bilhões já para o ano fiscal de 2027.