O Silêncio Ensurdecedor de Maranello: O Dia em que o Cavallino Dobrou os Joelhos

Opinião por Diogo Turco
Redação QG do Automóvel
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Meus caros, o mundo, como o conhecemos, finalmente capitulou. Enzo Ferrari, onde quer que esteja neste momento — certamente gerenciando um grid de largada no purgatório, abastecido a puro querosene e sem qualquer limite de decibéis —, deve estar procurando um disjuntor para puxar. Maranello capitulou. A última fortaleza do romantismo mecânico cedeu ao lobby dos homens de gravata cinza e das baterias de íon de lítio. Senhoras e senhores, saúdem a Ferrari LUCE. 100% elétrica. 100% silenciosa. E, para o desespero dos puristas, 100% projetada pelo homem que desenhou o seu iPhone.

A heresia começa logo quando você abre a porta. Aliás, peço perdão pelo termo “porta”; na nova ordem mundial, devemos chamar de “interface de acesso”. O interior foi concebido por Sir Jony Ive. Sim, o “gênio” da Apple. Aquele sujeito que passou duas décadas nos convencendo de que passar o dedo numa tela de vidro era o ápice da experiência humana.

O resultado é um painel que flutua com a delicadeza de uma Smart TV de sala de estar, preso por uma articulação esférica. Uma maravilha da engenharia de consultório médico. Mas o Jony Ive, em um raro momento de lucidez automotiva — ou talvez após um susto a 200 km/h —, percebeu que carro não é telefone. Colocou botões físicos! Uma ovação de pé para o gênio, por favor. Ele descobriu que ajustar o ar-condicionado a 180Km/h tateando um visor digital é uma excelente maneira de conhecer o Criador mais cedo. Dizem que o volante é uma obra-prima. Dezenove peças usinadas em alumínio maciço, cortadas por máquinas de tolerância nanométrica. O toque parece gelado, o clique se mostra sólido. Uma experiência quase religiosa de unboxing, já que estou conhecendo essa senhora, robô, por vídeos.

É o “teatro introdutório”, como eles chamam. Você coloca a chave no console e ela desce macia, com um clique magnético e um jogo de luzes que faz o sujeito salivar. É lindo. É poético. É o ápice do fetiche tecnológico. Mas, meus amigos, nos sonhos de todos nós entusiastas, o “teatro introdutório” de uma Ferrari consistia em girar uma chave de metal comum e ouvir doze cilindros italianos acordarem aos berros, cuspindo fogo e assustando as aves num raio de três quilômetros. Isso sim era drama. O resto é apenas um eletrodoméstico caro com grife uma cafeteira elétrica com o cavalinho rampante estampado para agregar valor a algo mornamente transparente.

E aí entramos no verdadeiro drama shakespeariano dessa máquina: o peso da consciência… e das baterias. A LUCE ostenta orgulhosos — ou melhor, obesos — 2.300 quilos. Duas toneladas e trezentos de pura virtude ecológica. Para mover esse monumento ao politicamente correto, instalaram quatro motores elétricos. O zero a cem é feito na casa dos dois segundos baixos. Uma patada no estômago capaz de descolar as retinas do motorista. Mas, convenhamos, qual é o mérito disso hoje em dia?

A eletrificação cometeu o pior dos pecados automotivos: ela democratizou e, consequentemente, banalizou a velocidade em linha reta. Atualmente, qualquer sujeito a bordo de um sedã chinês de plástico, comprado em três parcelas sem juros no shopping, consegue emparelhar num semáforo e entregar o mesmo tempo de aceleração de uma Ferrari F50. A performance virou uma commodity barata. Ficou fácil ser rápido.

E é aí que a equação de Maranello faz água. Onde reside o valor de uma Ferrari que não ruge? Como justificar um preço que equivale ao PIB de uma pequena nação caribenha quando o seu carro não tem alma, não tem vibração e o motor elétrico tem a complexidade mecânica de uma batedeira de bolo industrial?

Não há fibra de carbono que salve; Sir Ive preferiu o alumínio, afinal, fibra de carbono não combina com a estética de uma Apple Store. Colocar um acabamento exótico ali seria o equivalente a colocar uma poltrona Luís XV dentro de uma loja de departamentos em Nova York. Fica over. Fica brega. No fim das contas, a Ferrari elétrica é o maior elefante na sala da história da indústria. Foi feita porque os acionistas exigiram, porque Bruxelas impôs e porque o mercado financeiro adora uma promessa verde — embora as ações tenham desabado 13% no dia em que a plataforma foi apresentada, provando que até Wall Street tem lá suas crises de nostalgia petrolífera.

Me desculpem os entusiastas do silêncio, os discípulos de Jobs e os adoradores do silício. A Ferrari LUCE pode ser o futuro, mas o futuro, às vezes, é incrivelmente sem graça. Prefiro ficar no passado, onde os carros faziam barulho, os designers usavam graxa em vez de ternos de alfaiataria e os milagres não precisavam de uma tomada de três pinos para acontecer.

Já tinha fechado a coluna, reabri o arquivo porque li uma frase do tri-campeão Nelson Piquet, quando o mesmo “brincava” nos grids da Indy, que funcionava seus carros à época com metanol enquanto a Formula 1 usava gasolina. Atualizando para os dias de hoje Nelsão falaria em um hipotético grid da Formula – e:

“Um abraço, meus caros, e mantenham os motores ligados. De preferência, aqueles que usam gasolina.”

 

 

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