O Fantasmagórico Barulho de Ontem

COLUNA DE QUARTA-FEIRA
Redação QG do Automóvel
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POR DIOGO TURCO

Caminhar pelos boxes de um autódromo hoje em dia é uma experiência quase terapêutica, se você for o tipo de pessoa que aprecia o zumbido de um refrigerador moderno ou o som de um secador de cabelo de luxo. É tudo muito “civilizado”. Mas, para quem ainda guarda no tímpano a cicatriz afetiva dos motores V10, o silêncio atual da Fórmula 1 soa como uma promessa de dieta que a gente sabe que não vai cumprir. O canal Splash and Go resolveu abrir o capô dessa novela, nos guiando por um labirinto de engrenagens e interesses onde o passado e o futuro trocam fechadas mais agressivas do que qualquer disputa de posição em Interlagos.

A história, vejam só, parecia ter um roteiro digno de um folheto institucional suíço para 2026: mais eletricidade, menos daquela complexidade hermética do MGU-H e a chegada de convidados ilustres como Audi e Ford. Estava tudo tão arrumadinho que chegava a ser suspeito. Foi quando o “fantasma do V10” — aquele motor que fazia seu esterno vibrar e seus pensamentos pedirem demissão por excesso de ruído — resolveu reaparecer nos corredores da FIA, provavelmente acompanhado por um aroma de saudade e gasolina de alta octanagem.

Atualmente, os carros são “unidades de potência híbridas”. Um termo adorável para dizer que são milagres da eficiência que gastam 40% menos combustível. Mas, ah, a eficiência tem um senso de humor peculiar. O vídeo revela um pânico crescente entre as fabricantes: o medo de que, em 2026, a energia elétrica simplesmente decida tirar uma soneca no meio da reta de Monza. Imagine a cena: o piloto, o ápice da engenharia humana, sendo forçado a reduzir uma marcha no meio da reta para o carro não tossir e parar. Seria, nas palavras precisas do narrador, “humilhante”. É como comprar uma Ferrari e descobrir que ela precisa de pilhas AA que acabam logo após a primeira esquina.

É claro que, por trás desse desejo romântico de ouvir um motor que soa como um grito de guerra, há o bom e velho xadrez de gabinete, jogado com o cinismo que só o automobilismo proporciona. Mohammed Ben Sulayem, o presidente da FIA, está acenando para a torcida com a volta do barulho enquanto, coincidentemente, busca a reeleição. Que sorte a nossa, não? Do outro lado, a Liberty Media talvez esteja usando a nostalgia como isca para atrair fabricantes independentes, tentando diminuir o poder das gigantes que têm o hábito irritante de abandonar o barco toda vez que a economia global decide ter uma indigestão.

O grid, como era de se esperar, está uma bagunça deliciosa. A Audi, que já gastou o PIB de uma pequena nação para entrar em 2026, não quer nem ouvir falar em mudanças. Enquanto isso, Ferrari e Ford parecem dispostas a “conversar” — o que no dicionário da F1 significa que estão esperando para ver quem oferece o melhor almoço. No fundo, fica a dúvida: será que a indústria automobilística, que antes corria para o elétrico como se estivesse fugindo de um incêndio, resolveu pisar no freio e admitir que combustíveis sintéticos e um bom cilindro ainda têm seu charme?

No fim das contas, a Fórmula 1 continua sendo aquele equilíbrio impossível entre o laboratório espacial e o circo romano. Entre reuniões tensas no Bahrein e simulações que provavelmente travam o computador de vez em quando, o V10 permanece ali: um sonho barulhento e teimoso que se recusa a ser esquecido no retrovisor, lembrando-nos que, às vezes, a gente só quer que o futuro faça um pouco mais de barulho antes de chegar.

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