O presidente e CEO da Honda, Toshihiro Mibe, voltou da China com uma mensagem dura: diante do avanço dos fornecedores e montadoras locais, a fabricante japonesa admite que precisa acelerar sua transformação para não ficar ainda mais para trás. A avaliação do executivo veio depois de uma visita a uma fábrica de autopeças em Xangai, onde teria dito que a Honda “não tem chance contra isso”, em referência ao nível de automação, velocidade e eficiência da operação chinesa.
A leitura da Honda sobre o cenário chinês reforça uma tendência já conhecida do setor: o ecossistema industrial da China se move em ritmo superior ao de várias marcas tradicionais, especialmente em elétricos, software e desenvolvimento de produto. No caso da Honda, a percepção de desvantagem levou a uma revisão interna da estrutura de desenvolvimento, com mais poder retornando aos engenheiros da empresa na tentativa de encurtar prazos e melhorar a capacidade de resposta.
O contraste com os planos nos Estados Unidos é direto. Poucas semanas antes, a Honda cancelou três veículos elétricos que seriam produzidos em Ohio, incluindo modelos da linha 0 Series e um Acura RSX, interrompendo um projeto que deveria começar a sair da linha de montagem ainda este ano. A montadora afirmou que a mudança não encerra suas operações industriais no estado, mas sinaliza uma retração importante na sua ofensiva de EVs de fabricação norte-americana.
A decisão ocorreu em meio a pressão financeira e à necessidade de rever prioridades, com a empresa optando por preservar flexibilidade e rentabilidade em vez de insistir em uma estratégia que, neste momento, parece menos competitiva frente aos rivais chineses. Ao mesmo tempo, a Honda também vem sinalizando interesse em soluções ligadas à China para fortalecer sua linha japonesa, inclusive com a importação de veículos elétricos produzidos no mercado chinês.
Na prática, o recado de Mibe é claro: a Honda reconhece que a disputa global dos elétricos já não se resume a produto, mas a velocidade industrial, cadeia de suprimentos e capacidade de execução. E, neste momento, o exemplo chinês parece ter servido menos como inspiração e mais como alerta.