O mercado automotivo brasileiro vive um momento paradoxal. Se por um lado a inadimplência não para de subir, assustando os indicativos econômicos tradicionais, por outro, a oferta de crédito para a compra de veículos segue acelerada, registrando seu melhor mês de abril em 16 anos.
O Alerta da Inadimplência
De acordo com o levantamento mais recente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), a inadimplência no setor automotivo continua em uma curva ascendente.
Entre as pessoas físicas, o índice de atrasos superiores a 90 dias atingiu a marca de 6,01%. Para efeito de comparação, há exatamente um ano, esse mesmo indicador estava em 4,73%, mostrando um crescimento contínuo que, na teoria, deveria fechar as torneiras do crédito.
A Contramão do Crédito
Contrariando a lógica de cautela bancária, a oferta de financiamentos ignorou o sinal vermelho da inadimplência. Dados divulgados pela B3 revelam que abril registrou um total de 634.587 veículos financiados, englobando modelos novos e usados, comerciais leves, motocicletas e pesados.
Este volume representa uma alta de 11,8% em relação ao mesmo período do ano passado, consagrando-se como o melhor resultado para o mês desde 2008 (quando 705.927 unidades foram financiadas).
O apetite do consumidor pelo crédito refletiu diretamente no segmento de automóveis, que apresentou os seguintes números em abril:
Modelos 0 km: Alta de 21,9% nos financiamentos.
Modelos Usados: Alta de 10,9% nos financiamentos.
O Balanço do Quadrimestre e a Queda nos Preços
No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, o mercado já soma 2,5 milhões de veículos vendidos a prazo. O ritmo de expansão é liderado pelas duas rodas, mas todos os segmentos fecharam no azul.
Segmento
Crescimento (Acumulado do Ano)
Motocicletas
16,0%
Automóveis
12,7%
Veículos Pesados
3,9%
Apesar dos juros ainda em patamares elevados, o mercado se ajusta de outras formas. A Tabela Auto B3 (desenvolvida em parceria com a Bright Consulting) apontou que, em abril, houve uma queda na média do preço de transação dos veículos, movimento impulsionado principalmente pelo reajuste nos valores dos modelos usados.
“Os dados indicam um cenário de crédito mais disponível, contribuindo para a manutenção do ritmo positivo do mercado automotivo, mesmo em um contexto de juros elevados.”
— Thiago Gaspar, superintendente de Relacionamento com Clientes e Relações Institucionais na Trillia.
A resiliência do setor mostra que a necessidade de mobilidade e as estratégias das financeiras continuam falando mais alto, mantendo as rodas da indústria girando em alta velocidade, mesmo em um asfalto econômico irregular.