O preço da gasolina nos postos brasileiros explodiu em março de 2026, resultado de uma “tempestade perfeita” entre a disparada dos preços internacionais do petróleo e reajustes tributários aprovados no início do ano. Essa combinação não só pressiona o bolso do motorista comum, mas eleva os custos logísticos em todo o país, encarecendo a cesta básica e alimentando a inflação dos alimentos essenciais.
Choque internacional e reação das distribuidoras
Tensões no Oriente Médio provocaram um salto de mais de 13% no barril de petróleo no mercado global neste mês. A Petrobras, estatal responsável pela maior parte da produção, não repassou a alta imediatamente às refinarias, criando uma defasagem de até 19% entre os preços internos e externos – o equivalente a R$ 0,29 por litro de gasolina.
Diante da pressão, distribuidoras privadas agiram por conta própria. A partir da primeira semana de março, elas reajustaram os valores vendidos aos postos, antecipando o impacto para o consumidor final. “É um ajuste inevitável para evitar prejuízos”, explica um executivo de uma distribuidora do Sudeste, sob condição de anonimato.
Impostos criam piso inflacionário
A base de preços já estava mais alta desde 1º de janeiro de 2026, com a entrada em vigor do reajuste do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Definido pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), o aumento fixou a alíquota em R$ 1,57 por litro de gasolina em todo o país, elevando o custo em R$ 0,10 por litro. Para o diesel, essencial ao transporte, o repasse foi de R$ 0,05 por litro.
Essas mudanças tributárias criaram um “piso inflacionário”, ampliando o efeito do choque externo. Economistas alertam que, sem alívio fiscal, os combustíveis seguirão como vilões da inflação em 2026.
Efeito dominó no frete e nos supermercados
O Brasil depende majoritariamente do transporte rodoviário para escoar safra e mercadorias. Com o diesel mais caro, encher o tanque de um caminhão vira despesa extra, forçando as transportadoras a repassar os custos ao frete.
Esse “efeito cascata” atinge em cheio a cesta básica. Arroz, feijão e óleo, que viajam de regiões produtoras distantes para centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, absorvem os aumentos logísticos de forma rápida. Famílias de baixa renda sentem o impacto mais forte: a alimentação básica, que já pesa no orçamento doméstico, fica proporcionalmente mais cara, corroendo o poder de compra.
Dados preliminares do IBGE indicam que a inflação de alimentos pode subir 0,5 ponto percentual só com esse repasse logístico. “É um ciclo vicioso: combustíveis caros geram frete caro, que vira comida cara”, resume o economista-chefe do Banco ABC, João Doria.
O governo federal monitora a situação, mas fontes do Ministério de Minas e Energia sinalizam que novos repasses da Petrobras são iminentes. Para o consumidor, a dica é planejar: com a gasolina acima de R$ 7 por litro em muitas capitais, alternativas como transporte público ou apps de carona podem aliviar o impacto imediato.