O Brasil voltou a empurrar carros para fora de suas fronteiras em março, mas sem o vigor que o setor precisa para chamar de recuperação de verdade. Foram 40,4 mil veículos embarcados — automóveis de passeio, comerciais leves, caminhões e ônibus — o melhor resultado desde outubro de 2025, quando o setor registrou 40,8 mil unidades exportadas. O avanço marca o quinto mês consecutivo de crescimento, mas ainda não é suficiente para reverter o fraco desempenho acumulado no primeiro trimestre.
Trimestre no vermelho
Com 99,7 mil unidades exportadas entre janeiro e março, a queda em relação ao mesmo período do ano passado chega a 18,5%. O número contrasta com o que foi 2025 no geral: as montadoras brasileiras chegaram a comemorar quase 529 mil veículos exportados no ano, expansão robusta de 32% sobre 2024. O começo de 2026, portanto, aparece como freada brusca após um ciclo virtuoso.
No recorte por segmento, os veículos leves exportados em março somaram 94 mil unidades — alta de 2,6% ante março de 2025. Já os caminhões, com 2,4 mil unidades embarcadas, recuaram 6,8%. No acumulado do trimestre, os dois segmentos seguem em queda: leves em -18,3% e caminhões em -20,7%, sinalizando que o problema não é pontual.
Março surpreende, Colômbia ajuda
Mesmo diante do quadro negativo no acumulado, a Anfavea admitiu que o desempenho de março foi acima do esperado. A entidade atribui parte da recuperação a mercados menores, com destaque para a Colômbia, que absorveu 7,5 mil veículos brasileiros nos três primeiros meses do ano — crescimento de 21,5% na comparação anual.
A boa notícia, porém, vem acompanhada de ressalvas. “2026 na Colômbia é ano eleitoral e ainda temos o fim do acordo comercial com o Brasil, que precisamos que seja renovado”, alertou Igor Calvet, presidente da Anfavea. O dirigente mantém cautela e segura a projeção oficial de crescimento de apenas 1,3% nas exportações para 2026, o que levaria o setor a algo próximo de 536 mil unidades no ano.
Argentina: o elefante na sala
O maior cliente externo das montadoras brasileiras segue como a maior interrogação do setor. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil exportou apenas 51,7 mil veículos para o país vizinho — queda expressiva em relação às 71,7 mil unidades do mesmo período de 2025. O mercado interno argentino também deu sinais preocupantes, com retração de 3% de janeiro a março.
A perda vai além do volume: a fatia brasileira no mercado argentino recuou de aproximadamente 45% no primeiro trimestre de 2025 para cerca de 43% no período atual. “Estamos perdendo participação na Argentina”, reconheceu Calvet, que aguarda um cenário mais claro no segundo trimestre para calibrar melhor as projeções do setor.
A volatilidade econômica do país vizinho — marcada por instabilidade cambial e reformas estruturais em andamento — é o principal fator de risco no horizonte das exportações brasileiras para o restante de 2026. Com a Colômbia sob sinal de alerta eleitoral e a Argentina ainda indefinida, a continuidade da sequência de cinco meses de alta dependerá menos do esforço das montadoras e mais do comportamento das economias que ainda confiam nos automóveis feitos no Brasil.
Fonte: Anfavea — Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores